A urgĂȘncia dos investimentos em saneamento e seus potenciais benefĂcios
- icoconsultoria
- 16 de dez. de 2022
- 5 min de leitura
InsuficiĂȘncia de investimentos no setor suprime benefĂcios econĂŽmicos, sociais e ambientais que poderiam ser alcançados com saneamento adequado
Isadora Cohen
Victor Medeiros
LuĂsa Dubourcq
Publicado orginalmente no JOTA
O amplamente conhecido cenĂĄrio do saneamento bĂĄsico no Brasil Ă© caracterizado por baixos nĂveis de cobertura dos serviços, em que cerca de 50% da população nĂŁo possui acesso Ă esgoto, e correlacionados baixos nĂveis de investimentos. Somando esforços pĂșblicos e privados, os investimentos anuais no setor se aproximaram de R$ 14 bilhĂ”es e sĂŁo insuficientes para universalizar os serviços na velocidade necessĂĄria. Enquanto o montante atual de investimentos em saneamento representa cerca de 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB), o valor necessĂĄrio para a universalização seria de 0,45% do PIB, mais que o dobro.
Como consequĂȘncia da insuficiĂȘncia de recursos para o setor, a população, especialmente a mais vulnerĂĄvel economicamente e aquela isolada das regiĂ”es centrais do paĂs, sofre com indisponibilidade de ĂĄgua tratada, ausĂȘncia da coleta e tratamento de esgoto e, consequentemente, com a incidĂȘncia de doenças de veiculação hĂdrica e a degradação do meio ambiente. A necessidade de desenvolver o saneamento se torna ainda mais relevante devido Ă s condiçÔes econĂŽmicas nos Ășltimos anos, em que se observou estagnação econĂŽmica prolongada, tornando o investimento um mecanismo-chave para a retomada da economia nos prĂłximos anos.
De acordo com estudo realizado pela ICO Consultoria para avaliar o potencial dos investimentos necessĂĄrios para a universalização do saneamento em termos de indução de renda, arrecadação de impostos e empregos, tais investimentos poderiam induzir, no curto prazo e mĂ©dio prazo, entre R$ 92,67 e R$ 267,4 bilhĂ”es de PIB, entre 328 e 947 mil empregos, alĂ©m de arrecadar entre R$ 11,3 bilhĂ”es e R$ 18,24 bilhĂ”es de impostos. No caso da manutenção dos atuais nĂveis de investimentos, os benefĂcios econĂŽmicos nĂŁo chegariam a 30% daqueles projetados para o cenĂĄrio de universalização.
AlĂ©m disso, os investimentos sĂŁo urgentes. A manutenção de um cenĂĄrio de baixa cobertura dos serviços implica uma elevada parcela da população que sofrerĂĄ com os prejuĂzos do saneamento inadequado. Os baixos investimentos, por sua vez, deixam de impulsionar a economia em um momento de estagnação. Estima-se que, para cada ano de atraso no cronograma de investimentos necessĂĄrios para a universalização, gera-se uma perda social (ou ineficiĂȘncia) de R$ 8,37 bilhĂ”es apenas em termos de indução de renda na economia.
Nesse sentido, a universalização dos serviços de saneamento Ă© inadiĂĄvel e demandarĂĄ a uniĂŁo de esforços pĂșblicos e privados em diversas esferas. Dentre elas, pode-se incluir questĂ”es relacionadas ao aprimoramento regulatĂłrio e institucional, ao planejamento da regionalização da prestação dos serviços, Ă inclusĂŁo de aspectos ESG nos projetos de saneamento e ao estĂmulo Ă s concessĂ”es e PPPs no setor. Cada um desses pilares, e a uniĂŁo entre eles, tem o potencial de acelerar benefĂcios econĂŽmicos, sociais e ambientais promovidos pelos investimentos em saneamento.
No Ăąmbito da regulação e da qualidade institucional, os benefĂcios se relacionam Ă maior atratividade aos investimentos privados e ao aumento da eficiĂȘncia dos gastos pĂșblicos. Dentre potenciais medidas para aprimorar esses mecanismos, pode-se citar a necessidade de criar instrumentos para a mitigação de riscos, o monitoramento e verificação de projetos, a capacitação de servidores para a regulação em entes subnacionais, o estabelecimento de normas de referĂȘncia da ANA e o apoio tĂ©cnico especializado para a formulação e acompanhamentos de projetos.
BenefĂcios adicionais estĂŁo conectados Ă prestação regionalizada dos serviços, gerando economias de escala e de eficiĂȘncia, com potencial redução de custos e aumento de produtividade por parte dos prestadores, alĂ©m de permitir uma estrutura efetiva de subsĂdios cruzados entre municĂpios superavitĂĄrios e deficitĂĄrios. Nesse sentido, Ă© necessĂĄrio o estĂmulo ao planejamento da regionalização e a implantação da prestação regionalizada dos serviços.
A universalização do saneamento pode ser ainda mais benĂ©fica Ă sociedade a partir do estĂmulo Ă s prĂĄticas ESG. O fomento generalizado ao ESG em projetos de infraestrutura desde os processos de planejamento da polĂtica pĂșblica, no oferecimento de serviços para populaçÔes socialmente vulnerĂĄveis e na inclusĂŁo desses usuĂĄrios no equilĂbrio do sistema por meio do pagamento de preços subsidiados, pode impactar populaçÔes econĂŽmica e socialmente vulnerĂĄveis e gerar benefĂcios ambientais substantivos.
Com o atingimento das metas de universalização, a expansĂŁo da cobertura de esgoto pode impactar 17,3 milhĂ”es de brasileiros e brasileiras que atualmente se encontram em situação de pobreza. Similarmente, a universalização tende a reduzir os nĂveis de desigualdade de renda, uma vez que os pobres sĂŁo aqueles que mais sofrem com a carĂȘncia de serviços de saneamento bĂĄsico no paĂs. Em termos ambientais, o incentivo Ă s prĂĄticas ambientalmente corretas, como, por exemplo, o tratamento do lodo de esgoto em compostagem, poderia reduzir milhĂ”es de toneladas de CO2 emitidas por ano e, consequentemente, diminuir prejuĂzos sociais causadas pela poluição do ar e dos rios.
No atual cenĂĄrio de necessidade de expansĂŁo dos investimentos e da geração de benefĂcios e externalidades positivas com o saneamento, as concessĂ”es e parcerias pĂșblico-privadas (PPPs) tĂȘm se mostrado uma solução eficaz para elevar os recursos e trazer ganhos de eficiĂȘncia no setor. Outra pesquisa da ICO Consultoria levantou os investimentos efetuados em ĂĄgua e esgoto por municĂpios incluĂdos em programas de concessĂ”es e PPPs no Ăąmbito do Novo Marco Legal[1].
Os investimentos previstos pelas concessĂ”es e PPPs nesses municĂpios representam mais de 3 vezes o valor investido no cenĂĄrio atual, considerando os Ășltimos 10 anos. Em outros termos, o mesmo montante investido pelas concessĂ”es e PPPs entre 2020 e 2030 seria alcançado apenas entre 20 ou 30 anos depois seguindo a trajetĂłria atual de insuficientes investimentos. Consequentemente, os benefĂcios e externalidades econĂŽmicas, sociais e ambientais do saneamento tambĂ©m seriam intensificados no cenĂĄrio de maior investimento.
A necessidade e urgĂȘncia de se aumentar os investimentos no setor de saneamento Ă© consensual. Os benefĂcios e as externalidades positivas mensurĂĄveis do saneamento bĂĄsico adequado sĂŁo vastos, e tendem a beneficiar mais a população carente e perifĂ©rica do paĂs em um momento em que a economia precisa de estĂmulos. Caso a trajetĂłria de investimentos dos Ășltimos anos persista, o paĂs percorrerĂĄ longas dĂ©cadas de prejuĂzos sociais, econĂŽmicos e ambientais causados por uma infraestrutura de saneamento insuficiente, de baixa qualidade e que nĂŁo inclui a população mais pobre.
Para que o trajeto do saneamento bĂĄsico brasileiro mude, o aprimoramento regulatĂłrio e institucional, o planejamento da regionalização dos serviços, o estĂmulo Ă s prĂĄticas ESG Ă© fundamental. Tais fatores formarĂŁo um ambiente adequado para a entrada da iniciativa privada no setor, e uma maior eficiĂȘncia dos gastos pĂșblicos, gerando um ciclo virtuoso de expansĂŁo dos investimentos e dos benefĂcios esperados com o desenvolvimento do saneamento no paĂs.
[1] Foram incluĂdos os municĂpios contemplados nos projetos de Parcerias PĂșblico-Privadas no setor de saneamento bĂĄsico realizados a partir da aprovação do novo marco regulatĂłrio do setor, em 2020, nos estados de AmapĂĄ, CearĂĄ, Pernambuco, Alagoas, EspĂrito Santo, Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul. Cumpre destacar que, no caso da concessĂŁo da RegiĂŁo Metropolitana do Recife, a concessĂŁo originĂĄria Ă© anterior Ă aprovação do novo Marco do Saneamento BĂĄsico (firmada em 2013), todavia, a delegação sofreu inĂșmeros aditivos contratuais recentes, inclusive com o fim de adequĂĄ-la Ă nova norma.
